Hanna Baker e seu próprio porquê

20:15



Depois do estouro que "Os 13 porquês" foi no Brasil e no mundo, o debate sobre o suicídio ganhou mais força e muitas questões, positivas e negativas, criaram raízes na discussão acerca do tema. O foco principal, logicamente, foi todo concentrado na personagem principal Hanna Baker, cujo o sofrimento fora tão demasiado que a levou a provocar a própria morte. Ao mesmo tempo vítima e vilã, as fitas de Hanna são a personificação da vingança e não só um meio póstumo de justificar o seu ato. Mostram, também, o efeito dominó das atitudes tomadas por cada personagem e exemplifica a frase "tudo que vai, volta" em seu mais fiel sentido.

Despindo de todo sentimentalismo e abandonando a herança Romântica, a garota suicida vai além do papel da adolescente que sofreu bullying e teve sua vida ceifada por culpa daqueles que estavam perto. Hanna merece ser um pouco desfocada de todos esses holofotes para uma questão que vai além do que ela própria sofreu: quem são os protagonistas das treze fitas? 

É importante deixar claro que não se deve confundir a reação do oprimido com a violência do opressor, mas deve-se levar em conta que a vingança de Hanna também fora uma violência, ainda que condicionada por uma causa maior. E é justamente a violência provocada pelas fitas que nos levam a questionar por que a condição das demais personagens da série é ignorada enquanto Hanna é posta em um pedestal. Apesar de focar no suicídio de Baker, "Os 13 porquês" sugere situações pouco exploradas e que devem ser discutidas.

Além do bullying e da depressão, temos as questões de gênero e sexualidade, o abandono familiar e o desequilíbrio emocional e mental exemplificados perfeitamente em cada personalidade que compõe a série. Como as entender? Como as questionar? O problema do foco exclusivo - dado tanto pela série, pela mídia e pelo público - em Hanna Baker está aí, ele não permite que as outras problemáticas que a narrativa apresenta sejam exploradas e discutidas e, por fim, acaba banalizando o tema central da série. 

Evidentemente, a personagem mais abalada após as fitas 
é Alex Standall. Talvez a culpa e o arrependimento pela "brincadeira sem graça" começaram a consumi-lo aos poucos até o destino dele ser o mesmo que o de Hanna. A situação de Alex é provocada dentro de seu próprio interior, seu próprio emocional o faz refém, o perturba e aterroriza. O ambiente hostil em que vivia, com o pai adepto ao uso de armas e da violência, e o rumo que as coisas tomaram no decorrer da história agravam seu quadro. A questão é que ele também fora afetado psicológica e emocionalmente pelas fitas de Baker, e fora afetado de uma maneira que também o encaminhou para um talvez fim trágico. Alex errou, inconscientemente, porém errou. Consegue reconhecer o erro e este o corrói dia após dia. Ele não é mau como Bryce ou Marcus, ele apenas falha e sofre com as consequências devastadoras de um pedaço de papel rabiscado, mas repleto de sentidos e ataques.


Jessica Davis traduz o desespero. O desespero da omissão, do reconhecimento, da raiva, do medo, da mágoa. Até, realmente, descobrir a verdade sobre a noite de sua festa, Jess se comporta extremamente mal em relação às fitas deixadas por Hanna. Quando reconhece que Hanna estava o tempo todo certa, as coisas mudam. O peso do acontecimento é depositado sobre si mesma e lidar com ele se torna difícil, mas Jessica ainda é uma vítima que se perde no meio do medo do que fora revelado, das suas convicções e também da culpa.




Justin Foley também chama atenção. Ele é algo a mais do que o melhor amigo de Bryce e típico garoto babaca de ensino médio. Justin, mesmo envolto em uma manta de atrocidades e erros, transmite na série uma questão tão comum no contemporâneo: o abandono familiar. E esse abandono não se camufla apenas de falta de afeto e compreensão, ele também é financeiro. Ele está completamente a esmo, jogado à própria sorte no mundo. Porém há Bryce, o melhor amigo que sempre ofereceu apoio financeiro, um ombro, uma família e popularidade a Justin. Sem dúvidas, o melhor momento na série é o rompimento definitivo de Foley com Bryce. Nesta cena, Justin reconhece, ou melhor, conhece quem é Bryce Walker e garante que o ex-melhor amigo não tornará a vê-lo. As atitudes de Justin parecem ser um reflexo de sua condição, tanto que seu arrependimento é nítido no final do série. 


Courtney Crimsen é uma personalidade contraditória. Tudo o que ela força para ser e a popularidade que tenta conseguir vai totalmente na direção contrária de quem ela realmente é. Suas ambições e sua obsessão em esconder a sexualidade, um ponto interessante da série, sobrepõem o bom senso que deveria ter em relação à Hanna e aos boatos inventados sobre ela. Courtney é falsa e tenta ao máximo esconder seu próprio eu, mesmo que isso signifique mentir, fingir e prejudicar o outro. Nada novo sob o sol, a personalidade de Courtney luta contra a correnteza de si mesma.

Quem também merece atenção especial é Tyler Down, ou o fotógrafo obcecado. Ele, mesmo sendo um porquê, também é uma vítima de bullying e ao contrário de Hannah, possui outras formas de descarregar toda a violência que recebe. Seja através das fotografias maldosas ou da coleção de armas escondidas sabe-se lá para qual finalidade, Tyler também representa um aspecto importante pouco aprofundado. Não é à toa que existam tão poucos gifs dele em uma simples busca no google. Os pais de Tyler não fazem ideia do que acontece com o menino e por que acontece. As últimas cenas da série não deixam claro o que acontece com Alex. Ele deu um tiro na cabeça? Tyler atirou nele? Down é uma personalidade conflitante na série ao mesmo tempo em que assume o papel de vilão e vítima. A violência sofrida por ele pode justificar a que ele causa nos outros? 


Apesar do foco dado a Hanna, ainda é cedo para falar sobre essa falta de voz que os personagens de "Os 13 porquês" possuem. Boatos dizem que a segunda temporada da série irá cumprir esse papel tão importante que é o da não perspectiva única. Como influenciadora, é extremamente necessário que a série aborde e explore as peculiaridades de cada personagem -assim como skins-, seus meios externos e internos e  as questões tão problemáticas que não são menos que reflexo da realidade. E por abordar nada além da realidade, não é correto que seja tratada apenas como um gatilho para o suicídio. No mundo contemporâneo, qualquer vento pode se tornar a gota água. 

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4 comentários

  1. Ainda não li os 13 por que, mais parece ser fascinante. A história até ler este post eu não sabia o que se passa nele.

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  2. Nossa, viciei nesse seriado e assisti os 13 em 2 dias... Realmente intrigante, como a mente humana é capaz de ser influenciada a tal ponto, infelizmente...

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  3. Gostei bastante do seu post, é bem isso que eu penso.
    Estou ansiosa para a 2ª temporada e ver como isso tudo se desenvolverá.
    Abraços

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  4. eu vi essa série e achei que se ela pedisse ajuda nada teria acontecido, as vezes as pessoas precisam saber que pode sim ,gritar por socorro

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